domingo, 28 de junho de 2015

Carta aberta de um Educador de Infância: Desculpa aos 25!


Termina um ano letivo…

É tempo de pensar e repensar. É tempo de redefinir e transformar. É tempo de pedir desculpa… de vos pedir desculpa! Em meu nome (e em nome de todos!), quero pedir-vos desculpa!

Por todas as vezes em que estive adormecido. E por todas em que fui um educador, literalmente, aborrecido!

Por todas as vezes em que cumpri uma planificação tão rígida, que em nada dignificava o vosso “Estatuto de Criança” nem o meu “Estatuto de Educador de Infância”.

Por todas as vezes em que não estavam predispostas para aquela aprendizagem que resultava daquele processo de ensino… E eu insistia!

Por todas as vezes em que não tive coragem para enfrentar os meus fantasmas, aqueles reais (em forma de gente!) que me acompanharam dia após dia, e fui-me acomodando, dia após dia. Por não ter coragem para pensar em vocês! Talvez eu é que esteja naquela fase que Piaget definiu como “Egocentrismo”.

Por todas as vezes em que preferi escutar o colega da porta do lado em vez de vos ouvir a vocês! As ideias dele eram sempre tão lindas e fofinhas… E por todas as vezes em que não o escutei! E por todas as vezes em que preferi perguntar nas redes sociais em vez de vos perguntar a vocês… Mas eu nunca tinha ouvido falar em pedagogias centradas no envolvimento e na participação!

Por todas as vezes em que não vos deixei brincar com os vossos melhores amigos. Às vezes o ruído incomodava-me. E vocês eram extremamente ruidosos. Vocês limitavam-se a ser crianças. Mas eu não poderia esquecer o meu papel de adulto. E eu limitei-vos.

Por todas as vezes em que queriam ir para o quintal mexer na terra. Mas não temos quintal. Podia ter-vos levado ao parque. Mas não levei. Era perigoso.

Por todas as solicitações que não dei resposta. Se calhar nunca percebi o vosso verdadeiro potencial. Tenho um defeito… Sou um educador inclusivo e, para mim, todos são iguais!

Por todas as vezes em que vos pedi para pintarem “por dentro”. E por todas as vezes em que não vos dei folhas do tamanho do mundo, para que expressassem o mundo tal como realmente o veem… e por todas as vezes em que vos dei, simplesmente, folhas! Eu sei que preferiam a terra às folhas… mas estava tanto frio… tanto calor!

E por todas as vezes em que destruí a vossa criatividade. Mas todos sabemos que o sol é amarelo, que as nuvens são azuis (mesmo que vocês me digam que as nuvens são brancas ou cinzentas!) e que as casas têm de ter uma chaminé a deitar fumo – e esta é uma regra aprendida em qualquer curso de Educadores de Infância (quase de certeza!).

Por todas as vezes em que não vos deixei ir para o recreio quando realmente queriam… quando realmente precisavam!

Por todas as fichas que vos dei! Mas o diretor disse que tinha de ser. E assim foi. Talvez me tenha faltado a coragem… mais uma vez!

Por todos os bolos com sabor a legos e plasticina que me ofereceram… e eu teimava em dizer que era alérgico e não podia comer! Eu era o Educador de Infância, não podia estar sempre a brincar, tinha de trabalhar, percebem-me… não percebem?!

Por todas as vezes em que tentei controlar o vosso sistema urinário. Se é para fazer chichi… que sejam todos ao mesmo tempo! E por todas as vezes em que não procurei desenvolver o vosso sistema imunitário. Bichos na mão? NÃO!

Por todas as vezes em que a vossa imaginação ficou limitada à imaginação de um adulto sem imaginação… a minha não-imaginação!

Por todas as vezes em que não deixei que fossem preguiçosas. Mas ainda bem que o fiz, hoje são capazes de estar 5 horas atentas. São sobredotadas! Estão prontas para a primária. Ao fim e ao cabo, é para isto que serve a “Pré-Primária”, não é?

Por todas as vezes em que não vos deixei deitarem-se. Se é para sentar é para sentar, não é para deitar! A culpa disto é dos pais, por não se deitarem cedo. Aliás, a culpa é sempre dos pais!

Por todas as vezes em que não vos deixei ser infantis. Por todas as vezes em que não vos deixei fazer uma birra por causa daquele carro e daquela boneca. Por todas as vezes em que não vos deixei chorar quando aquela ferida do tamanho de uma formiga tanto vos afligia! Por todas as vezes em que não vos deixei sentir os sabores e dissabores tão próprios da vossa infância!

Por todas as vezes em que vos dei um símbolo cor-de-rosa e um azul… Mas aqui vocês eram fantásticos. Percebiam logo que o cor-de-rosa era para as meninas e o azul para os meninos! Viva aos estereótipos! Viva!

Por todas as vezes em que vos pedi para vestirem a bata quando, na verdade, aquilo que mais queriam era envergar e fazer desfilar os vossos vestidos reais pela passadeira da vida!

Por todas as vezes em que fomos à praia e vos tratei como um rebanho de ovelhas. Ora todas sentadas a brincar... ora um comboinho para ir à água: mas atenção, "vai um de cada vez" e "é só para molhar os pezinhos!".

Por todas as vezes em que não vos falei ao coração. Sempre preferi falar-vos aos ouvidos…

Por todas as vezes em que não tive tempo… Em que não tive, simplesmente, tempo para vocês!

Desculpem qualquer coisa! Mas obrigado!

Desculpem,
Por todas as vezes em que fui feliz quando não vos fazia felizes!

Mas obrigado,
Por conseguirem destruir os meus credos pedagógicos em 27 segundos (ou até menos)!



Um Educador de Infância,

Fábio Gonçalves