sábado, 28 de março de 2015

Educadores aborrecidos educam crianças aborrecidas!

Carta aberta de uma criança...aborrecida!





Estou farta…! 


Estou tão farta!


  Estou farta de bonecos de neve. Os bonecos de neve deveriam ser abolidos do Jardim de Infância…e os flocos de neve também. No jardim-de-infância os bonecos de neve deveriam ser construídos se, e só se, nós, crianças, fizéssemos uma visita à Serra da Estrela ou a Montalegre!


    E também estou farta de celebrar a primavera em dias que parecem inverno! Porquê que me mandam celebrar a primavera sem nunca me terem levado a ver a primavera?! A cheirar a primavera… A tocar na primavera… A sentir a primavera! Mas o painel ficou bonito, os pais gostaram! E o coordenador também!


    E estou farta de fazer “flores de primavera”… e coelhinhos da páscoa… e pais natais… e coraçõezinhos… Aliás o problema não está em fazer, porque eu gosto de fazer. Eu até sou uma criança ativa com “boas competências ao nível da motricidade fina”. Mas, estou farta de fazer “trabalhinhos” exatamente iguais aos meus amigos da sala, e aos meus amigos de Lisboa, de Bragança, de Santarém, de Aveiro… Estou farta que não me perguntem como quero fazer… Estou farta que não me deixem pensar!


    Sim, é exatamente isso. Estou farta de reproduzir. Quero pensar e refletir para poder criar! Isto mesmo, quero criar. Eu sei criar. E estou farta que não me deixem.


    Ah, e estou farta de fazer trabalhinhos com materiais “recicláveis”. E acho muito engraçado quando a minha “professora” traz pratos de plástico (novos), palhinhas (novas) ou paus de gelados (novos) e me diz que vamos fazer um trabalho com materiais “reciclados”! Sim, estou mesmo farta de aprender a reciclar e preocupar-me com o ambiente quando, na realidade, sou levada a utilizar cerca de cinquenta folhas por dia… e cartolinas… e papel crepe… e papel vegetal… e papel, papel e mais papel! Quando o que eu gosto mesmo é de escrever na terra e cortar o vento!


    E estou farta que me digas o que vou dar ao meu pai e à minha mãe. Eu só quero e preciso que brinquem comigo! Que me amem. E os meus pais não precisam de mais nada além de mim! Precisam, simplesmente, que seja feliz! Mas aceito que queiras que eu lhes dê uma lembrança, é importante que celebremos as datas mais importantes. Agora ouve-me, por favor, ouve o que tenho para dizer! Sabes que não é por aceitar a lembrança do dia do pai e do dia da mãe que não deixo de estar farta  de celebrar todos os dias do calendário, certo?


    Estou farta de outra coisa. Mas tenho medo de te dizer, não vás querer que eu fique sem o meu tempo preferido no Jardim de Infância: o recreio. Mas estou farta de ficar sentada a ouvir-te sem que me ouças a mim!




    E não sou apenas eu que estou aborrecida! Como eu há muitas outras crianças que estão fartas!



Um Educador de Infância!
Fábio Gonçalves

domingo, 1 de março de 2015

O que é ser Educador de Infância?


   Não é fácil ser Educador de Infância. E quem julga que ser Educador de Infância é brincar o dia todo…julga muito bem. Quer dizer, não é bem assim, mas o ideal seria que o Educador passasse o dia todo a brincar com as crianças. Não será a infância o tempo e espaço privilegiado para valorizar e incentivar o brincar por brincar? Acredito que seja.

    Ser Educador de Infância é ouvir o nosso nome ser chamado cerca de 1654 vezes por dia, gasto até à exaustão, sendo que em 500 dessas vezes nos chamam para assoar o nariz ou limpar o rabo – isto também é ser Educador de Infância. Em outras 300 vezes chamam-nos para apertar a bata. Ou tirar a bata para que as princesas possam desfilar com os seus vestidos reais pela passadeira da vida infantil. E ser Educador de Infância é ter a capacidade de responder às 1654 solicitações que as crianças nos fazem chegar diariamente. 

    Ser Educador de Infância é permitir que as crianças possam pintar um cão cor-de-rosa e um gato azul, uma árvore amarela e um ser humano cordeburroquandofoge. Ser Educador de Infância é dar o direito às crianças de contestarem: “Não quero pintar um ovo na Páscoa nem um coração no dia dos namorados”. Ser Educador de Infância é permitir que os artistas se possam expressar, livremente. É permitir que as crianças possam criar, e que as criações possam fruir naturalmente. Sem pressões.

    Ser Educador de Infância é permitir que o Natal seja quando as crianças quiserem. Literalmente quando quiserem.

    Ser Educador de Infância é ver as crianças sorrirem quando lhes possibilitamos brincar com terra ou andarem à chuva, mesmo que os pais muitas vezes não gostem nada disso (ohhhh). Às vezes os pais é que se zangam connosco. Mas elas gostam. E eu gosto quando elas me enchem o chão com terra, e as mesas, e as paredes…

    Ser Educador de Infância é ter a certeza que as crianças nos vão cobrar quando falhamos. Legitimamente vão cobrar. E quando oralmente proferimos palavras incorretas, elas corrigem. E vão se rir de nós. E rimo-nos todos.

    Ser Educador de Infância também tem coisas más. Eu é que já não me lembro. Mas por muito mau que tenha sido o nosso dia, por muito que nos tenham psicologicamente esgotado, não temos tempo nem espaço para guardar ressentimentos. E na hora da despedida, no final do dia, há sempre tempo para um beijo puro e um abraço sincero.

    Haverá melhor do que ter uma profissão onde temos o futuro do mundo nas nossas mãos? É por isso que, para sermos Educadores de Infância, temos de ser realmente boas pessoas.

    

Um Educador de Infância!
Fábio Gonçalves