domingo, 24 de janeiro de 2016

Ser Educador de Infância...


É amar vinte e cinco crianças de vinte e cinco formas diferentes.

É agarrar a oportunidade de dar oportunidades.

É dar tudo de nós, mesmo nos dias em que só queremos estar a sós.

É sorrir quando nos apetece chorar.

É dizer «não» quando querem que digamos «sim».

É sair fora do quadrado. É estar dentro da caixa e fugir. Saltar. Partir.

É perceber o quanto as crianças nos ensinam quando queremos que estejam a aprender.

É saborear as paixões diárias que nos são trazidas nas palmas das suas mãos.

É olhar para os olhos de uma criança só para os ver brilhar.

É sentir um sorriso com o coração. E sentir o palpitar do coração num sorriso singelo.

É atirá-las para o ar e fazê-las pensar que vão para a lua.

É deixa-las correr, arranhar os joelhos, esfolar os cotovelos, deixa-las cair… abraça-las a seguir.

É limpar uma lágrima e senti-la… mesmo na ponta dos nossos dedos.

É caminhar, para a frente e para trás… lado a lado.

É abrir a porta do nosso mundo aos mundos de cada um, num mundo que será o nosso.

É ouvirmos histórias fabulosas pela manhã, pela tarde… que nos adormecem pela noite.

É refletir na forma como estamos a agir.

É receber flores pela manhã e desenhos feitos durante o pequeno-almoço.

É dizer «não» e conseguir resistir ao olhar suplicante, tão ternurento, de uma criança.

É resolver os problemas com aquilo que temos ali à mão. Desenrascar alguma coisa com qualquer coisa.

É (tentar) desenvolver a motricidade fina das crianças quando temos as mãos cheias de cola.

É desenharmos um tigre e ouvirmos “isso é um gato, eu pedi um tigre”.

É ouvir uma criança, duas, três crianças chamarem o nosso nome para as ajudarmos a resolver catástrofes que acontecem na sala… e com uma perna aqui, um braço ali, a cabeça acolá… voilá, conseguimos resolver tudo, praticamente ao mesmo tempo.

É sentarmo-nos a brincar ao lado de uma criança e esperar que ela não pergunte: “Porquê que estás a brincar?”

É contar histórias no aconchego de um abraço.

É perdoar e esquecer. Ser perdoado sem ser esquecido.

É ver partir sem perder.


Ser Educador de Infância não é só isto nem apenas isto. É muito melhor do que isto!





Um Educador de Infância,
Fábio Gonçalves


sábado, 16 de janeiro de 2016

Quando as crianças me ralham...



Elas ralham-me.
Todos os dias, sem exceção, as crianças ralham-me.


Ralham-me quando não as ouço. E eu até gosto de as ouvir. Mas às vezes há coisas mais importantes para fazer ou papéis para preencher.


Ralham-me quando sugiro que se sentem com a entoação do verbo “mandar”.


Ralham-me quando não como os bolos de plasticina que meticulosa e delicadamente preparam para mim… porque, segundo eu próprio, os bolos fazem mal à barriga.


Ralham-me quando não me sento a ler-lhes uma história. Não, não é isso… histórias eu leio, todas as semanas, todos os dias… estou a falar daquelas histórias ouvidas ao colo… aconchegados no conforto e na simplicidade de uma biblioteca, ao som da melodia de um terno abraço. Ralham-me quando não lhes desperto aquele gosto pela leitura… aquele gosto que tão poucos reconhecem e tantos desconhecem!


Ralham-me quando lhes digo que sim, só porque sim e lhes digo que não, só porque não.


Ralham-me quando não lhes respondo aos porquês. De vez em quando lá lhes respondo… mas por norma falta-me a sensatez.


Ralham-me quando as garrafas têm de se transformar, obrigatoriamente, num boneco de neve… ou numa flor… ou numa árvore de natal.


Ralham-me quando estou demasiado preocupado (e ocupado) com as suas dificuldades… em prol das formalidades!


Ralham-me quando me esqueço. Quando me esqueço de um “tudo”… que para mim não passa de um “nada”.


Ralham-me quando as resumo a três áreas: Formação, Expressão e Conhecimento… e me esqueço que são pessoas sociais que querem a oportunidade para comunicar com o mundo!


Ralham-me quando faço questão de as transformar em marionetas para as minhas mãos e em fantoches para os meus dedos.


Ralham-me quando as faço sentir que a vida delas no jardim-de-infância é “isto e apenas isto e não passa disto”.


Ralham-me quando não as respeito da mesma forma como quero que me respeitem a mim.


Ralham-me quando só penso numa pedagogia que não tem como resultado a harmonia integral de cada uma delas.


Ralham-me sempre que lhes ralho mesmo sem lhes ralhar.


Hoje apenas vos peço que continuem a ralhar-me (a ralhar-nos). Parece-me possível.


Ralhem-me... continuem a ralhar-me com o vosso silêncio.


E com isso façam-me crescer.


Um Educador de Infância,
Fábio Gonçalves