sábado, 16 de janeiro de 2016

Quando as crianças me ralham...



Elas ralham-me.
Todos os dias, sem exceção, as crianças ralham-me.


Ralham-me quando não as ouço. E eu até gosto de as ouvir. Mas às vezes há coisas mais importantes para fazer ou papéis para preencher.


Ralham-me quando sugiro que se sentem com a entoação do verbo “mandar”.


Ralham-me quando não como os bolos de plasticina que meticulosa e delicadamente preparam para mim… porque, segundo eu próprio, os bolos fazem mal à barriga.


Ralham-me quando não me sento a ler-lhes uma história. Não, não é isso… histórias eu leio, todas as semanas, todos os dias… estou a falar daquelas histórias ouvidas ao colo… aconchegados no conforto e na simplicidade de uma biblioteca, ao som da melodia de um terno abraço. Ralham-me quando não lhes desperto aquele gosto pela leitura… aquele gosto que tão poucos reconhecem e tantos desconhecem!


Ralham-me quando lhes digo que sim, só porque sim e lhes digo que não, só porque não.


Ralham-me quando não lhes respondo aos porquês. De vez em quando lá lhes respondo… mas por norma falta-me a sensatez.


Ralham-me quando as garrafas têm de se transformar, obrigatoriamente, num boneco de neve… ou numa flor… ou numa árvore de natal.


Ralham-me quando estou demasiado preocupado (e ocupado) com as suas dificuldades… em prol das formalidades!


Ralham-me quando me esqueço. Quando me esqueço de um “tudo”… que para mim não passa de um “nada”.


Ralham-me quando as resumo a três áreas: Formação, Expressão e Conhecimento… e me esqueço que são pessoas sociais que querem a oportunidade para comunicar com o mundo!


Ralham-me quando faço questão de as transformar em marionetas para as minhas mãos e em fantoches para os meus dedos.


Ralham-me quando as faço sentir que a vida delas no jardim-de-infância é “isto e apenas isto e não passa disto”.


Ralham-me quando não as respeito da mesma forma como quero que me respeitem a mim.


Ralham-me quando só penso numa pedagogia que não tem como resultado a harmonia integral de cada uma delas.


Ralham-me sempre que lhes ralho mesmo sem lhes ralhar.


Hoje apenas vos peço que continuem a ralhar-me (a ralhar-nos). Parece-me possível.


Ralhem-me... continuem a ralhar-me com o vosso silêncio.


E com isso façam-me crescer.


Um Educador de Infância,
Fábio Gonçalves

2 comentários:

  1. Gosto muito. Porque cada palavra me dá um recado urgente e me faz refletir! Obrigada Fábio por mais um texto magnífico.

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