domingo, 6 de setembro de 2015

O primeiro dia dos melhores dias da sua vida!



Hoje venho falar-vos sobre o pior dia da vida de uma criança: a entrada no Jardim-de-Infância. (E desta vez não estou a ser irónico!)


Algumas acabam de chegar junto a ti. Não as conheces. Não te conhecem. Serás um estranho na vida de um ser de palmo e meio que, logo ali, começas a amar!


    Claro que há crianças e crianças.
Algumas trazem o mundo na ponta da língua. Mas para essas será um reencontro, o tão aguardado reencontro: com os brinquedos, com um espaço que é tão delas, com os amigos. O reencontro contigo! As crianças que carregam o mundo na ponta da língua chegam apressadas e sorridentes, prontas para te contarem as 3765 aventuras das suas férias. E tu vais querer falar e não te vão deixar!


    Há crianças e crianças.
Algumas trazem o mundo dentro de um pequeno coração. Essas já te conhecem. Já te amam. Mas o regresso àquele seu mundo é sempre um momento um tanto ou quanto difícil. Doloroso mas passageiro. Rapidamente regressam às rotinas. À vida! Rapidamente voltam a ser felizes num tempo e num espaço que as faz demasiadamente felizes! E contigo elas são felizes!


    Sim, há crianças e crianças.
Algumas trazem o mundo na palma da mão e na ponta dos pés. São destemidas. Corajosas. Ousadas. Atrevidas. Não as conheces. Mas parece que elas te conhecem a ti. Quando o teu olhar se cruzar com o delas, rapidamente se sentirão seguras e partirão no imediato à aventura. A estas conquistaste pelo simples facto de existires!


    De facto, há crianças e crianças.
E algumas trazem o mundo espelhado no olhar. Os olhos que lhes permitem ver o mundo são os mesmos que te vão permitir conhecer o seu mundo. E naquele momento o mundo delas não é cor-de-rosa, nem azul, nem verde, nem tem todas as cores do arco-íris... naquele momento o mundo delas é negro! Com um olhar carregado de tristeza e amargura, solidão e infelicidade, mágoa e confusão, as lágrimas fluem como um rio… sem cessar. E estas crianças são como um rio que procura o seu mar. Mas não o encontram. Chegar ao Jardim-de-Infância é o pior dia das suas vidas!


E tu tens mil planos e mais alguns para o primeiro dia do resto das suas vidas. Sabes bem que elas vão chorar. Já pensaste noutras tantas estratégias para promoveres a integração e adaptação das crianças que chegam pela primeira vez ao Jardim-de-Infância. Mas sabes melhor que ninguém que vão ser tempos difíceis. Em alguns casos serão tempos muito difíceis. E sabes que, por muito que possas tentar, quase tudo o que pensares concretizar será em vão. Talvez um abraço resulte. Mas não. Outro abraço. Também não. O colo resulta, mas apenas durante 5 segundos.


E elas vão chorar durante 10 minutos. Uma hora. Duas horas. Um dia. Uma semana. Um mês… E vão gritar, provavelmente, durante o mesmo período de tempo. E vão perguntar-te a cada segundo pela mãe, pelo pai, pelo avô, pelo cão, pela tartaruga… E se as souberes ouvir, também a cada segundo vão perguntar-te pelos brinquedos, pelos passeios à beira mar, pelas idas ao parque, pelos almoços na casa da avó….


E vão chorar. Vão chorar tanto! E vais sentir-te impotente perante tal flagelo emocional. Porque dói… e dói demais. E o seu choro vai ser arrebatador. As suas lágrimas vão fazer doer, quase quebrar, a tua alma. Parece que o mundo vai acabar naquele exato instante a nada podes fazer!


Por mais que diariamente tentes, sabes que não há muito que possas fazer. Mas se estiveres lá em todos os momentos… Talvez o processo seja menos doloroso. Para elas, para os pais… e para ti!


Por muito que as crianças chorem, que gritem, que esperneiem e façam “birras” para não entrarem no Jardim-de-Infância, nunca te esqueças que, nestes momentos, o importante é estares lá. Esquece por momentos o ensino e a aprendizagem e preocupa-te em estar, simplesmente estar!


Cabe-te a ti transformar o pior dia da vida de uma criança numa aventura que se prevê coletiva. Numa aventura recheada de momentos felizes. Porque o tempo em que estarão no Jardim-de-Infância é um tempo privilegiado para promover a felicidade. Em todo este processo (muito duro emocionalmente) o importante é estares lá para que as faças perceber que o pior dia das suas vidas é apenas o início de um tempo feliz, de um dos tempos mais felizes da sua infância.


E quando as fizeres felizes no Jardim-de-Infância... nunca mais se lembrarão do pior dia da vida de uma criança!






Um Educador de Infância,

Fábio Gonçalves








Nota do Educador:

Enquanto Educador de Infância, e tendo consciência que é apenas uma situação momentânea e passageira, não posso deixar de admitir que o processo de adaptação de novas crianças me deixa particularmente desnorteado. Ver o sofrimento de uma criança espelhado no seu rosto sem que muito possa fazer… é um momento particularmente difícil. Tudo se faz, tudo se consegue e todas as crianças acabam por se integrar. Mas confesso que me custa!

2 comentários:

  1. Muito bem. O importante é estarmos mesmo lá, deixar mo nos de técnica. Tenho presente o dia que uma criança de 10 meses entrou na creche, ela só queria a mãe chegou ao colégio eu peguei lhe ao colo e fui brincar com ela com um telefone,o brinquedo que ela mais gostava. Todos os dias quando entrava tinha de ser eu a recebe , até o avó se admirava como ela ficava tão bem comigo. O JI tornou se um encanto para ela.

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  2. Lindíssimo Fábio Gonçalves!A simplicidade das tuas palavras retrata exactamente o que sentimos nestes momentos. .. Obrigada.

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