sexta-feira, 25 de março de 2016

Quando uma criança avalia um Educador de Infância...


Parabéns!!!


Superaste todas as expetativas que em ti havia depositado. Foste um adulto preocupado e empenhado. Um adulto de referência que dia após dia revelava a sua imponência.


Ao nível do recorte estás bem desenvolvido. Consegues recortar coelhinhos da Páscoa como ninguém! E o mesmo posso dizer em relação às flores da primavera, aos bonecos de neve, aos corações do dia dos namorados que, amorosamente, penduras nas janelas.


E quando não tens tempo para acabar estes "trabalhinhos" (que dão cá um trabalhão!) em tempo letivo, levas trabalho para casa, para fazeres ao serão! Ninguém faz ideia daquilo que um Educador ainda tem de fazer em casa!


O teu traço fino está num patamar semelhante. É incrivelmente surreal a forma como, tão bem, contornas os meus desenhos com um marcador preto.


Ao nível do desenho já ultrapassaste a fase da abstração, pelo que as tuas criações nas minhas folhas estão cada vez mais concretas, num nível muito positivo. Consegues orientar vários objetos na (minha) folha, conseguindo representar casas, árvores, o sol e as nuvens de forma notável.


Ainda em relação ao ponto anterior, mereces ser parabenizado pelo facto de conseguires que as 25 crianças do teu grupo desenhem casas exatamente iguais às tuas, sóis como os teus e nuvens azuis como tão bem nos ensinaste (mesmo quando te dizemos que as nuvens são brancas/cinzentas!).


És um trabalhador exemplar. Muitas vezes rejeitas as brincadeiras que te propomos ao longo do dia para estares, afincadamente, a trabalhar para nós (ou será por nós?): a fazer a minha lembrança para o pai, para a mãe, para a avó, para a tia, para o tio, para o elefante do jardim zoológico (só porque sim).


Por seres uma pessoa que valoriza cada uma das crianças e tudo o que elas fazem na sala… és especial! Dizes-nos sempre “Que giro”…em tudo o que fazemos. Ahh, e parabéns também por teres uma visão tão desenvolvida… não é que consegues apreciar os nossos "trabalhinhos" mesmo sem olhares para eles? Mesmo quando estás de costas? Parece inacreditável… mas percebo-te, tudo o que fazemos para ti é “tão giro” que nem precisas de olhar.


Parabéns por nos fazeres andar em “comboinho”, por questões de segurança. Todos sabemos que o percurso entre a sala e o refeitório é incrivelmente assustador e cheio de perigos. E da sala ao recreio as barreiras a ultrapassar são mais que muitas. Sabe-se lá se não encontraremos pelo caminho um bicho papão, um monstro numa aparição ou o próprio Grufalão.


O teu desenvolvimento também é notório em relação aos jogos de Expressão Dramática que nos ensinas. Adoramos imitar animais. E és muito competente quando nos permites fazer jogos ligeiramente diferentes: imitar outros animais.


Na Expressão Motora tens procurado desenvolver-nos um conjunto de aptidões magníficas e extremamente importantes: salta para aqui, salta para lá. Corre para ali, corre para acolá. Estas são apenas algumas das competências que dificilmente conseguiríamos alcançar se, simplesmente, brincássemos.


Ao nível da leitura de histórias a tua preocupação é também imensa (e intensa!). O teu receio em que nos assustemos com alguma personagem ou ação, faz com que as histórias que seleciones estejam repletas de “inhos” e “inhas”. De facto estás de parabéns por fazeres da minha infância um tempo (ridiculamente) infantil.


Gostamos de tudo o que nos ensinas.
Mas...
Sabes... também gostávamos de aprender alguma coisa.


Parabéns.
Passaste para o 1.º Ciclo!
Talvez seja o melhor para todos. Talvez…



Um Educador de Infância,
Fábio Gonçalves

7 comentários:

  1. Bom escrito...as crianças agradecem de certeza que haja educadores assim, capazes de, a brincar (ou a sério??)escreverem e pensarem sobre a aprendizagem...porque é disto que se trata. Obrigada, mesmo.

    ResponderEliminar
  2. Como seria bom tirar um bocadinho e refletir à séria sobre isto! À bruta digo: chega de educar à carneirada tudo igual ou semelhante... Basta de facilitismo no sistema de avalaciação da carreira docente do educador! Obrigada Fábio pelo texto, que mesmo em ironia deveria tocar tantos educadores!

    ResponderEliminar
  3. Muito bem escrito e representativo de uma realidade ainda presente. Parabéns pelos teus escritos Fábio e por tentares acordar atitudes!!

    ResponderEliminar
  4. Ah, o sentido de humor é a maior ferramenta que o ser humano tem para comunicar. Excelente!

    ResponderEliminar
  5. Antes de mais, parabéns por se conseguir colocar na perspetiva de uma criança e escrever algo tão verdadeiro... Gostaria de deixar aqui uma pergunta que, penso eu, merece ser alvo de debate...
    Será que não há educadores com competências e vontade de ultrapassar tudo isso?
    Na minha opinião, o "fazer para os pais" condiciona muitos educadores... A mim (como estagiária) chateia-me ter que estar parada com os meninos uns segundos para tirar fotos para mostrar aos pais... chateia-me ter que "ajudar" a pintar os corações e a "fazer" as prendas do dia do pai (que tentamos que sejam o mais deles possível), porque as instituições (não os educadores) assim o esperam que façamos... Quando for educadora, espero ter a liberdade de me confiarem um grupo sem exigências... espero que as instituições não pretendam que celebre todo aquele "curriculum oculto", espero que os pais não me impeçam de levar os meninos para o recreio no inverno.
    Eu comprometo-me, espero que o nosso sistema educativo também se comece a comprometer.

    ResponderEliminar
  6. Como será o trabalho de uma educadora de infância numa sala com 25 crianças, todas diferentes embora todas iguais, com tanta responsabilidade e atenção? Como é possível ser autorizado poder haver salas com 25 crianças? O trabalho da educadora, assim, torna-se mais difícil.

    ResponderEliminar