Supervisão Pedagógica: Um caminho para uma maior equidade nas escolas?


A escola é responsável por promover oportunidades para todos, independentemente do capital cultural, social ou económico dos alunos, por isso importa refletir de que forma conceitos como igualdade ou equidade combatem as desigualdades e assimetrias que a sociedade impõe e que não podem ter lugar na instituição escolar.  


Transportando estes dois termos para a escola, podemos assumir que a igualdade é a oportunidade que todos têm para ingressar na escola e aprender. No entanto, pela diversidade cultural existente entre os alunos, sabemos que o currículo oculto que cada um traz consigo é diferente, que não aprendem da mesma forma e que os ritmos de aprendizagem variam de aluno para aluno. É nesta perspetiva que a equidade se assume como aquilo que o Ministério da Educação, numa escala global, e a escola e os professores, em específico, fazem para que os alunos atinjam os objetivos delineados: os recursos que estão disponíveis, sejam humanos ou materiais; as estratégias que utilizam; o modo como promovem a aprendizagem; as metodologias que sustentam as suas práticas; a forma como colocam andaimes na aprendizagem dos alunos (scaffolding); ou seja, a equidade passa pela forma como os processos são ajustados às necessidades de cada um. Em síntese, enquanto que a igualdade permite o acesso, os princípios de equidade preconizam o sucesso.


De que forma a Supervisão Pedagógica se assume como uma estratégia potenciadora da equidade nas escolas? 

A supervisão pode ser entendida como uma visão alargada, no domínio da nossa ação educativa, do nosso modo de fazer, permitindo uma orientação para o desenvolvimento e para a qualidade das nossas práticas enquanto professores. A função do professor é, além de ensinar, fazer com que alguém aprenda – e podemos aqui estabelecer um paralelismo entre a relação igualdade/ equidade com o processo ensinar/ aprender, ou seja, o facto de ensinarmos todos os alunos assume-se aqui como a igualdade, enquanto que a efetiva aprendizagem de cada um é que poderá definir se existe equidade. Claramente que existe uma multiplicidade de fatores a limitar esta equidade, que nem sempre estão ao alcance dos professores. Há alguns que, definitivamente, não conseguimos controlar, como a falta de recursos humanos. Mas outros existem que estão ao nosso alcance.

Se aliada a uma metodologia de investigação-ação, a Supervisão Pedagógica leva-nos a refletir no que fazemos, no porquê de fazermos e a avaliar os processos inerentes à aprendizagem dos alunos, sendo a supervisão que permite adequar as nossas estratégias à realidade e culura de cada um. A supervisão pode assumir-se como um processo impulsionador de uma mudança que promove a equidade, havendo várias estratégias que podem ser assumidas. 


Em primeiro lugar, é importante que o professor se assuma como supervisor de si próprio, através da auto-reflexão que faz da sua prática e assumindo-se como um investigador da sua própria ação. O processo de auto-supervisão poderá ser uma estratégia promotora do desenvolvimento pessoal e profissional dos docentes, na medida em que irá promover a análise das práticas pedagógicas em contexto, potenciando a reconstrução do nosso saber e do nosso agir profissional, por ser uma estratégia auto-transformadora que regula o processo de ensino. De facto, se olharmos para o nosso modo de fazer e para os resultados que temos, numa perspetiva de reflexão após a ação, ser-nos-á possível avaliar os efeitos que daí advêm. É essa avaliação que promoverá a transformação e, claro, o sucesso dos alunos conforme o que nos for possível, porque olharemos para os resultados e para os processos que estiveram na génese dos mesmos, podendo modificá-los numa perspetiva de melhoria. A auto-supervisão assume-se como um processo de questionamento da nossa prática: porque faço como faço? Este aluno não teve sucesso, porquê? O que posso mudar na minha ação para levar este aluno ao sucesso? O que é o sucesso para este aluno em específico? Que estratégias poderei modificar? No que está o meu alcance, o que posso fazer? Estas são algumas questões que o processo de auto-supervisão nos deve colocar no nosso dia-a-dia. 


É certo que as estratégias de auto-supervisão são essenciais para o desenvolvimento de cada um e para o alcance dos objetivos propostos, quer pessoais e profissionais, como para implementar práticas que promovam a equidade entre os alunos, pela transformação, devendo ser uma atitude docente regular e sistemática. No entanto, também é possível perceber que a auto-supervisão e a sua índole transformadora está dependente da perspetiva que cada professor tem sobre a sua forma de ensinar e na fundamentação que faz da sua prática pedagógica. Nesta linha, e assumindo que o ensino não pode nem deve ser encarado como uma viagem solitária, mas em companhia, através de estreitos processos de colaboração entre docentes e comunidade educativa, a supervisão entre pares permite estabelecer parcerias que promovam o desenvolvimento: dos professores envolvidos, dos alunos e da comunidade.


Quando existe esta colaboração entre docentes, existe um supervisor e um supervisando, sendo que o primeiro é aquele que irá olhar com uma visão exterior e com uma intencionalidade, quer antes da ação, durante a ação e depois da ação, questionando os objetivos e as práticas, numa perspetiva reflexiva, levando o supervisando a refletir conjuntamente sobre a adequação das suas propostas e os resultados obtidos. Este tipo de estratégia promove, definitivamente, a melhoria da nossa prática e a adequação do nosso modo de fazer às reais necessidades dos alunos, através do confronto entre o olhar de quem observa com o olhar de quem é observado. Se existir este espírito de colaboração entre professores, com estratégias de supervisão facilitadoras do desenvolvimento profissional, os professores sentir-se-ão apoiados nas suas práticas pedagógicas e melhorarão os seus processos de ensino. Neste processo colaborativo de desenvolvimento profissional, é essencial que supervisor e supervisando possam ir assumindo ambos os papéis neste processo, uma vez que durante a situação supervisiva o desenvolvimento acontece independentemente da função que se assume, esteja-se a observar ou seja-se observado.  


Em síntese, enquanto docentes temos consciência que existem múltiplos fatores que condicionam a equidade e a sua efetivação nas escolas, e a realidade das escolas não é aquela que todos ambicionamos, pela diversidade que existe. No entanto, é importante que tenhamos perceção que podemos sempre melhorar a forma como fazemos e tentar ao máximo levar os alunos a aprender, porque é essa a nossa função. A supervisão pedagógica, enquanto processo formativo, permite-nos olhar para o nosso modo de fazer pedagógico e adequá-lo à realidade e às necessidades de cada um.


Quando levamos algum aluno a aprender, estamos a praticar os princípios de equidade na escola. E fazer com que os alunos aprendam é a nossa função. 

Um Professor,
Fábio Gonçalves

Fonte da imagem: Vilmar Oliveira. Página disponível em: https://educacao.uol.com.br/colunas/priscila-cruz/2017/03/29/a-distante-busca-pela-equidade.htm, consultada a 18 de outubro de 2020.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

PORQUÊ QUE AINDA HÁ CRIANÇAS DE 1, 2 ou 3 ANOS A PINTAR DESENHOS?

Carta aberta de uma criança a um Educador que faz a diferença

Um dia vamos mudar a Educação de Infância...