O que é preparar uma criança para o 1º Ciclo?!

 




O paradigma da preparação, assumido muitas vezes como um facilitador associado à transição das crianças entre o jardim-de-infância e o primeiro ciclo, pode ter duas leituras diferentes.

Em primeiro lugar, se assumirmos a preparação como o trabalho que o Educador desenvolve ao nível da autonomia e da independência, da responsabilidade, do desenvolvimento do pensamento crítico, da capacidade da criança para argumentar e contra-argumentar, da resolução de conflitos e de problemas, da gestão de frustrações e emoções, da interação com os outros…. Então aí sim, esse tipo de “preparação” faz sentido. Mas esta não é uma preparação que tem como princípio facilitar a transição para o primeiro ciclo. Este conjunto de competências que as crianças desenvolvem ao longo do seu percurso (entre muitas outras), desde a creche ao jardim-de-infância, acabam por ser uma preparação que servirá de base a toda a escolaridade e a toda a vida. E nós sabemos o quão importante são as bases para o sucesso de qualquer percurso! Estas são algumas das razões pelas quais o jardim-de-infância não pode ser encarado como um tempo e espaço destinado apenas à preparação para o primeiro ciclo. A especificidade deste contexto vai além da preparação para o nível de ensino seguinte

No entanto, muitas vezes, quando defendemos que estamos a preparar as crianças para o primeiro ciclo”, o foco da nossa perspetiva centra-se, meramente, num trabalho de treino e reprodução contínua de grafismos de letras e números. O nosso objetivo nestes momentos é que as crianças se limitem a reproduzir tracejados, que acabam por se tornar aborrecidos. E que tipo de competência estas atividades promovem nas crianças? O que é que elas aprendem? Quais as competências, importantes no primeiro ciclo, que estas atividades desenvolvem? Ter uma letra bonita? 

Quando chegam ao primeiro Ciclo, as crianças não se destacam apenas por terem uma letra bonita. No primeiro ciclo, e em qualquer outro, um bom aluno não é aquele que tem apenas uma letra bonita. Ter uma caligrafia "redondinha e perfeitinha" não irá fazer com que uma criança seja mais participativa, que partilhe os seus pontos de vista de forma clara e sustentada, que argumente, que pense por si, que consiga interpretar, que responda com segurança, que tenha pensamento crítico, que seja confiante... Ter uma letra bonita, por si só, não faz com que a criança esteja mais ou menos preparada para o primeiro ciclo.

E frequentemente ouvimos: “Mas temos de desenvolver a motricidade fina das crianças.”

Sim, esse trabalho é fundamental e, enquanto educadores, temos de o fazer e promover o desenvolvimento da motricidade fina das crianças. Mas estas competências não são adquiridas apenas com grafismos e com a reprodução de linhas, espirais, letras ou números. Há outras tantas atividades que podem ser feitas no jardim-de-infância, pedagogicamente mais ricas e estimulantes, que acabam por promover essas mesmas competências, mas de modo mais significativo e motivador para as crianças. 

Ouvimos frequentemente: “E aquelas crianças que gostam de escrever?” Claro que há crianças que gostam de escrever, que gostam de brincar com a escrita e isso tem de lhes ser possibilitado, até porque a escrita faz parte do nosso quotidiano e do dia a dia das crianças. As crianças vivem rodeadas pela escrita, pelo que não devemos nem podemos fugir a isso. A abordagem à escrita é fundamental para que as crianças aprendam sobre a utilidade da escrita e, acima de tudo, aprendam a gostar de escrever. É a abordagem à escrita que se faz no jardim-de-infância que despertará na criança o desejo e a vontade de escrever... e sabemos que quanto maior a implicação, mais significativa será a aprendizagem. Agora, quando falamos em preparação, não devemos focar a nossa ação e intenção educativa em competências tecnicistas de reprodução. Abordar, estimular ou promover o contacto com a escrita, não é ensinar a escrever. Tudo depende da nossa intencionalidade educativa.

O foco é, tantas vezes, centrado na preparação e adaptação da criança ao primeiro ciclo. Mas parece-me também importante que pensemos mais no papel das escolas, dos professores e dos educadores nesta transição, do que naquilo que as crianças devem saber antes do ingresso num novo contexto. 

 

Um professor do 1.ºCiclo,

Fábio Gonçalves


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