Em dia mundial da criança: Desculpa aos 25!

 

Desculpem.

Por todas as vezes em que estive adormecido e fui um educador aborrecido.

Pelas planificações que cumpri... apenas para cumprir.

Por todas as vezes em que substituí a vossa aprendizagem pelo meu ensino.

Por nem sempre ter tido a coragem de pensar em vocês.

Por todas as vezes em que preferi ideias giras e fofinhas, vistas aqui ou acolá, em vez das ideias que mais importavam: as vossas.

Pelas vezes em que limitei a vossa livre expressão, por causa do barulho que por vezes me incomodava, esquecendo-me que era esse o vosso viver. O vosso ser.

Por todas as vezes em que queriam ir para a terra e eu disse que não. Por todas as vezes em que queriam ir para o exterior, ou melhor, quando mais precisavam, e eu disse que não.

Pelas solicitações às quais não dei resposta.

Por todas as vezes em que vos pedi para pintarem “por dentro”. E por todas as vezes em que não vos dei folhas do tamanho do mundo, para que expressassem o mundo tal como realmente o veem… e por todas as vezes em que vos dei, simplesmente, folhas! Eu sei que preferiam a terra às folhas… mas estava tanto frio… tanto calor!

Por todas as vezes em que o sol teve de ser amarelo, as nuvens azuis (mesmo quando me diziam que eram brancas ou cinzentas) e que as casas têm sempre uma chaminé a deitar fumo.

Pelas situações em que a vossa imaginação ficou limitada à minha imaginação, ou melhor, à minha não-imaginação.

Pelas fichas que vos dei, sem ter pensado na intencionalidade. Só porque sim.

Pelos bolos de legos que me ofereceram e eu não provei. Estava demasiado ocupado a trabalhar e esquecia aquilo que era mais importante do meu trabalho: vocês. O estar convosco.

Por todas as vezes em que tentei controlar o vosso sistema urinário. Se é para fazer chichi… teriam de ser todos ao mesmo tempo! E por todas as vezes em que não procurei desenvolver o vosso sistema imunitário. Bichos na mão? NÃO!

Por todas as vezes em que não deixei que fossem infantis, mesmo sendo vocês crianças pequenas. Pelas birras que tentei evitar por causa deste ou daquele brinquedo.

Por todas as vezes em que atribuía símbolos a cada um de vocês, às vezes azuis e cor-de-rosa.

Por ter-vos pedido para vestirem a bata quando, na verdade, o que mais queriam era desfilar pela sala com os vossos vestidos reais.

Por nem sempre confiar e não vos deixar sentir os sabores e dissabores tão próprios da vossa infância.

Por todas as vezes em que se quiseram deitar, mas eu pedia para se sentarem. Regras.

Por todos os momentos em que não vos falei ao coração, mas apenas aos ouvidos.

Por todas as vezes em que não tive tempo. Em que não tive, simplesmente, tempo para vocês! Tempo de qualidade. Tempo que nos aproxima.

Desculpem,

Por todas as vezes em que não vos fiz felizes.

Mas obrigado,

Por conseguirem desconstruir e reconstruir as minhas certezas pedagógicas em 27 segundos!

Por me ensinarem que me desculpam sempre.

Que faça o que fizer, aquilo que sentem por mim é amor.

Por mais que faça, por mais que diga, vocês sabem que há sempre amor.

Lembrar-me-ei sempre destes anos que são vividos em dias.

 

Um Educador de Infância,

Fábio Gonçalves

 

Texto escrito a 28 de junho de 2015 e reescrito a 1 de junho de 2021

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