sábado, 1 de agosto de 2015

Lembro-me dos anos que foram vividos em dias!


Lembro-me…


Do vosso cheiro. Dos gestos.
Dos vossos medos incertos.
De um espírito aventureiro.
Tão próprio. Tão vosso.
Tão nosso.


Lembro-me da vossa garra.
Da algazarra.
Lembro-me de ser Cigarra,
De convosco tocar guitarra.
Lembro-me de serem formigas
E da vossa disputa sobre quem… distribuía a fruta.


Lembro-me do primeiro desenho.
De um tão hábil empenho.
Do engenho.
E da delícia do vosso sotaque nortenho.
Até me lembro da vossa figura humana.
De vos ter comigo em cada dia da semana.


Lembro-me de vos ter comigo.
Simplesmente, comigo.
Tão meus.
Tão vosso.
Tudo tão nosso.


Lembro-me das primeiras letras esculpidas.
E das vossas almas despidas.
Sem nunca esquecer.
Sem segredos. Sem esconder.  
Sem nunca vos perder.


Lembro-me dos segredos.
Lembro-me das palavras.
Sim, lembro-me das vossas palavras.
Lembro-me do “cada um faz como quiser!”
Lembro-me do “Nós não andamos de mãos dadas”.
Haja o que houver.
Lembro-me do “não é preciso pedir!”
E do “juntos podemos decidir!”


Lembro-me da pedagogia.
Que convosco desconstruí
Toda aquela teoria!
E a cada dia edificamos,
Aquela tão nossa filosofia.
Tão nossa!


Lembro-me de botões.
Na bata e nos casacões!
Nos macacões…
E dos cordões por apertar.
Dos rabos por limpar.
Do ranho por fungar.


Lembro-me de cuidar.
De ajudar e apoiar.
De cooperar.
Passo a passo. Lado a lado.
De vos ver caminhar.
De crescerem em autonomia,
A cada dia.


Lembro-me dos estereótipos.
Do rosa apenas para meninas.
Do azul para rapazes.
E de mudanças eficazes.


Lembro-me da terra.
Dos pés no chão.
De sentir o vosso coração
Mesmo na palma da vossa mão.
Na ponta de cada dedo.
De cada um com o seu enredo.


Lembro-me da “Portuguesa”.
E lembro-me de me arrepiar,
Sempre que o hino resolviam cantar
No meio do vosso brincar.
E dos pais a comentar:
“Ele não para de cantar o hino”.
Destruímos conceções.
Vivemos emoções.
Às Armas, Às Armas,
Entoavam com prazer.


Lembro-me das vossas armas.
E das amarras.
Das lutas numa guerra
Onde um cravo sempre encerra.


Lembro-me de encontrarmos Miró,
Com um livro que se lê.
E de como descobrimos Paul Klee,
Com o que cada um de vós fez.
E refez.
Numa história sem fim.


Lembro-me do Piet, sim,
Que era Mondrian
Mas parecia mandrião.
E de Van Gogh,
Que tinha um “quarto bonito”.
Sem um único “brinquedo no chão”!


Lembro-me de Vivaldi e Mozart.
Lembro-me de Fernando António Pessoa.
E da sua ida à África do Sul.
Ia para Durban, ensinaram-se vocês.


Lembro-me do “Já estão fartos disto!”,
Então “Vamos brincar!”
Lembro-me de vos ver brincar.
Tão fácil.
E das brincadeiras.
Do jogo das cadeiras.
De cada uma das asneiras.


Lembro-me da roupa suja.
Do corpo sujo.
Da tinta.
Lembro-me da tinta nas mesas.
Nas mãos.
No cabelo. Na cara. Nos pés.
E nos pincéis.
Das conversas de cristãos.


Lembro-me da liberdade.
Da criativa.
Da artística.
Da livre liberdade.
Lembro-me da vossa idade.
Da vossa autenticidade.


Lembro-me da loucura.
Daquela tão doce louca ternura.
Dos desafios.
Da desarrumação.
Das paredes cheias de história... 
Mas hoje, parece que foi em vão.
Vazias. Despojadas. 
Paredes. Simples paredes
Condenadas à solidão.
Lembro-me de vocês. 
Lembro-me tão bem de vocês.


Lembro-me de não saber ser Educador.
Lembro-me dos erros.
E lembro-me tão bem dos meus erros.
E de cada aprendizagem.
Da camaradagem.


Lembro-me que, com vocês,
Aprendi a não querer errar.
Não quero.
Mas vou fazê-lo…
Todas as vezes em que me assemelhar
Mais ao Homem e menos à Criança!


Em tempo de Adeus, apenas peço que sejam felizes.
É o meu mais terno desejo.
Que as pessoas nunca fechem as portas que juntos abrimos.
Parece-me exequível!

Mas, não é fácil ver-vos partir...




Estarei sempre por cá.



Hoje não sou um Educador de Infância.
Hoje sou (e serei sempre!) o vosso Educador de Infância,


Fábio Gonçalves

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