domingo, 8 de maio de 2016

Quero fazer-vos sorrir, mais uma vez…



Hoje não me vou preocupar com as presenças. Vocês nem sabem muito bem o porquê de, diariamente, fazerem uma cruz num quadro que não vos diz nada, ao qual não lhes dão qualquer utilidade, muito menos significado. Talvez nem eu. Não, hoje não. Hoje não me vou preocupar.

Hoje também não quero que registem o tempo. Hoje quero apenas que o sintam. E também não quero que se preocupem com matemática quando estiverem a contar os dias de sol, os dias de chuva, os dias de nevoeiro, os dias de seca….

Hoje também não quero responsáveis. Voltemos ao antigamente e votemos de braço no ar…. na ação. No momento. Para cada situação!

Hoje não vos quero ver com cara de bola: ora verdes, ora vermelhas e, quando calha, amarelas. Não. Hoje quero olhar para vocês além daquilo que vocês fazem, muito mais além daquilo que é o vosso comportamento. Quero olhar para aquilo que são.

Não. Hoje não quero limitar o número de crianças que brincam nas vossas áreas. Sim, vossas... mas que normalmente assumo como minhas. Esqueçamos os cartões, as fotografias, os colares…. Esqueçam tudo. Hoje brinquem, simplesmente. Não percam tempo com burocracias. Para isso existem os adultos.

Não, não! Hoje não quero escrever o que vocês me dizem, como resultado da escuta que faço. Não. Hoje quero ouvir-vos. Simplesmente ouvir-vos.

Hoje não me vou preocupar com os registos. É a história, a receita, o trabalho experimental, o meu projeto… Não. Hoje não. Hoje vamos apenas vivê-los…

Hoje não vou querer saber se os legos servem para fazer construções, sequências ou padrões. Hoje vou deixar-vos comer legos. Sim, comam os legos. Transformem-nos em frango, em melancia ou em caviar. Façam de conta. Hoje só quero isso.

Hoje não quero mesas para trabalhar. Hoje quero tendas, casas e castelos. Quero montanhas e túneis. Quero grutas. Esconderijos. Trincheiras. Hoje quero mais Educação de Infância. Muito mais. E melhor.

Hoje não me vou preocupar com a regulação do vosso trânsito intestinal. Hoje façam cocó quando vos apetecer (e não quando eu quiser que façam!). Também não vou apressar o vosso sistema urinário. Hoje façam chichi quando tiverem vontade, apenas isso.

Hoje não quero que desenhem o sol, nem a lua, nem as estrelas. Hoje quero que o sejam. Que brilhem como o sol. Que iluminem como a lua. E cintilem como as estrelas. Hoje apenas quero que sejam o meu céu.

Hoje não quero trabalhos e trabalhinhos…que dão trabalhões. Hoje quero vida aos trambolhões.
Hoje não quero que me peçam. Hoje quero que me digam.
Hoje não quero dizer. Hoje quero fazer.
Hoje não quero. Ou melhor, quero… Quero que queiram!
Quero que me queiram da mesma forma que vos quero!

Amanhã talvez voltemos ao mesmo. Às mesmas rotinas. Às mesmas práticas. Às mesmas….Até porque tenho de trabalhar. (e vocês também!)
Mas hoje… hoje não. Hoje, por favor, não!
Hoje apenas quero ver-vos sorrir. Mais uma vez…



E não há nada melhor do que fazer-vos sorrir.

Às vezes só não tenho é muito tempo!


Um Educador de Infância,
Fábio Gonçalves

16 comentários:

  1. com toda a certeza que as suas crianças sorriem muito...parabéns pela partilha...gostei muito...às vezes, mas só às vezes faço o mesmo...

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  2. Olá Fábio! Obrigada grande! Tantas vezes antes de começar o dia penso fazer assim...e depois lá chega o mapa de presenças o tempo que faz que é de Inverno com chuva e frio mas na Primavera onde sempre dizemos que acontece com mais calor, andorinhas,...ai ai...refletir e sentir um bater forte de coração e um acelerar de pensamento em gritos de
    razão...de razão?
    Amanhã vai ser assim...assim? talvez um pouco assim...se for um pouco haverá mais sol por perto, mais luz, mais sorrisos, e todos seremos mais livres! Beijinho Fábio!Raquel Amorim

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    1. Obrigado Raquel! Que continuemos, a cada dia, um bocadinho mais livres. Nós e elas, as crianças.

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  3. Dá mesmo vontade de fazer o mesmo! espetaculo! Parabéns!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Muito obrigada. Sinto-me muito mais acompanhada...gostei muito.

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    1. E é tão bom quando nos sentimos acompanhados. Felizmente, há sempre, aqui e ali, alguém que nos faz sentir acompanhados, que nos faz continuar a não querer desistir deste caminho que é a Educação de Infância.
      Obrigado!

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  6. Fábio, ao ler o que escreves ouço as vozes das crianças e a cada leitura vivo mais um momento de reflexão sobre a minha prática. Obrigada!

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    1. As crianças falam-nos, diariamente. Cabe-nos a nós ouvi-las e, acima de tudo, senti-las. É a escuta que fazemos das vozes das crianças (e mesmo quando não falam dizem-nos tanto!) que dá à nossa prática um verdadeiro e real sentido.

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  7. parabéns... revejo-me totalmente.

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  8. Muito bom!!!!Nós por cá já tentamos fazer isto SEMPRE! E os resultados são tão bons.E trabalhamos nós e eles, mas de outra maneira!!!

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  9. Maravilhoso Fábio. Parabéns pelo texto, pelo sentir, por permitires, por seres e deixares ser. Tantos dias a sentir o mesmo, tantos meses a quer fazer um dia assim. Trabalhei "para outros" e nesse período tive que ir de encontro a certas normas, finalmente já só trabalho para mim e para as minhas crianças e agora faço deste "teu dia só hoje" os meus dias "de quase sempre". É tão bom deixar que estes meninos e meninas sejam isso mesmo, simplesmente crianças, sem rotinas impostas pelos adultos e que em segundos deixem de utilizar um tacho para fazer comer para passar a ter um chapéu de soldado :)
    Obrigada.

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  10. Obrigada por escrever assim...por mim, por nós, pelos meninos e meninas que partilham os seus dias connosco. Como concordo e como vou tentar fazer mais vezes dias assim...dias felizes!!!

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  11. Deixai as crianças ser Criançaa . Rousseau.😘 Um texto fantástico.😘

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