A infância não termina aos seis!

 Este está a ser um ano letivo diferente, pelo que continua a ser importante que não esqueçamos os pressupostos que devem nortear a nossa ação enquanto professores. 

Uma criança quando chega ao 1.º Ciclo não deixa de ser criança e, como qualquer criança, precisa de tempo para brincar. A escola somos nós que a fazemos, por isso não podemos dizer que a culpa de as crianças não terem tempo para brincar é do sistema, quando nós somos, em grande medida, esse mesmo sistema. Atrevo-me a dizer que as crianças precisam, também, que os professores brinquem com elas.

O espaço de aprendizagem não se resume, nem se pode resumir, a uma sala de aula. Uma criança não aprende apenas sentada numa cadeira em frente a um quadro. E não, utilizar um quadro interativo não pressupõe que, à partida, a aula seja mais participativa e haja maior envolvimento.



A aprendizagem em contexto escolar não pode cingir-se ao Português e à Matemática, porque as crianças não falam apenas a linguagem das letras ou dos números. As crianças continuam a ter as cem linguagens que tinham antes de chegarem à formalidade de uma sala de aula e é urgente que todas sejam incentivadas. E porque é que apenas o mérito a Português e Matemática é valorizado? Porque é que uma criança excelente nas Artes não tem o mesmo reconhecimento? E as que possuem competências motoras extraordinárias? Porque não lhe damos (nem nos permitem que demos). Simples. 


Estudo do Meio é isso mesmo… do meio. E estudar o meio dentro de quatro paredes não me parece que seja a melhor estratégia quando temos uma comunidade para explorar. O Estudo do Meio tem de assumir-se como um tempo privilegiado para que as crianças pensem e reflitam sobre o mundo que as rodeia, a começar pelo local onde vivem. A escola tem de fazer parte da comunidade. Um dos principais objetivos de Estudo do Meio deve passar por fazer com que as crianças se sintam parte ativa da comunidade, valorizando-a e integrando-a.


As aulas de Educação Física fazem parte do horário curricular do primeiro ciclo – não, as AEC não substituem este tempo letivo! E que se deixe de substituir as aulas de Educação Física pela resolução de exercícios de português ou de matemática, por fichas de trabalho para preparar outras fichas... de avaliação. Não tirem às crianças uma das disciplinas que elas mais gostam e que tão bem lhes faz ao corpo... e à mente. Sim, sou dos que acredita que a Educação Física faz bem ao português e à matemática! 

E as fichas de avaliação, serão a única forma existente para avaliar as crianças? E os exames e provas de aferição, servem exatamente para quê? Uma coisa que a pandemia trouxe de positivo foi isto: diferentes estratégias de avaliação; e deu para perceber que a provas e exames não servem para grande coisa.


A Educação Artística não diz respeito apenas ao pintar desenhos. E pintar desenhos talvez seja a “arte” mais redutora daquilo que deve ser o trabalho artístico. É urgente que a Educação Artística seja encarada com a seriedade que lhe é devida. É fundamental que os alunos possam viver a Arte de uma forma pura e livre, sem condicionamentos. A arte no 1º Ciclo não se pode resumir à elaboração de flores na primavera, corações no dia dos namorados ou coelhos na páscoa. E a Educação Artística não pode ser avaliada por um desenho pintado. Educação Artística é pintura, escultura, desenho, teatro, música, dança… É Arte. E arte é expressão! E as crianças precisam de ser livres na forma como se expressam. As crianças precisam de ter oportunidades para se expressarem. E quando me refiro a expressão livre não é aquela que eu lhes proponho... é aquela que elas escolhem!


Escolher. O direito à escolha. O direito a questionar. E não, não se pode fazer apenas porque "sempre se fez assim". A escola é um espaço onde se vive a democracia e as crianças devem fazer parte dela. A ideia de que o professor manda e os alunos obedecem é já antiquada. A criança tem o direito a não concordar, a ter argumentação e oportunidade para partilhar os seus pontos de vista. O professor é aquele que permite e fomenta a discussão.

As crianças precisam de ser ouvidas e sentirem que aquilo que dizem é valorizado. A escola tem de se assumir como um espaço de participação onde podem ser livres. E na escola tem de haver tempo para conversar, sem a preocupação de fazer as crianças alcançarem "competências discursivas" descritas nos referenciais de de metas e objetivos a atingir. Conversar apenas por conversar, partilhar pontos de vista, ideias, opiniões, frustrações… Na verdade, conversar para criar e reforçar relações.


Os processos de aprendizagem das crianças devem ser colaborativos. É possível promover o trabalho de projeto com crianças e fomentar processos de pesquisa e investigação. É tão melhor aprender em companhia. As crianças devem ter direito a serem uma voz ativa em tudo o que acontece na sala – sim, mesmo em relação aos conteúdos que aprendem. É possível fazer essa gestão.

O capital cultural é diferente de criança para criança e é a partir daí que devemos partir. As crianças não chegam à escola vazias de conhecimento, de aprendizagens, de saberes… de vida. Toda essa diferença não é motivo para segregar, bem pelo contrário, serve para aproximar. O currículo oculto que cada criança traz consigo não pode ser menosprezado e pode servir de mote para grandes aprendizagens - sim, há aprendizagens que não vêm nos manuais.


E é importante não esquecer o bem-estar, temos de olhar para o bem-estar das crianças como peça fundamental no seu desenvolvimento. E quando uma criança não está bem, sabemos que a aprendizagem não vai ser significativa porque o seu envolvimento ficará aquém. Uma criança feliz na escola é uma criança que aprende melhor, já que nos preocupamos tanto com o aprender. 


E sim, para os mais cépticos, é possível as crianças fazerem tudo isto e aprenderem Português e Matemática ao mesmo tempo - e serem competentes. E o truque está aí, na flexibilidade e na trasnversalidade. Mas calma, não estou a falar da flexibilidade que tão bem escrevemos nos documentos oficiais, refiro-me aquela que acontece naturalmente no dia-a-dia através das múltiplas situações de aprendizagem que acontecem. Aquela que não nos é imposta em projetos que sentimos obrigação de fazer, mas a flexibilidade que faz parte do nosso modo de fazer pedagógico. 

Sim, tenho ainda alguma dificuldade em conceber o facto de se querer fazer bandeira de algo como a "flexibilidade" e grandes projetos ao redor deste conceito tão "inovador", quando ela devia ser a bandeira de qualquer professor. 


Essencialmente, que ao longo deste ano as crianças consigam ter tempo para serem felizes. É tão melhor aprender quando estamos felizes. Tão melhor! 

Obs: Sim, eu sei que no primeiro ciclo já são alunos. Mas para mim serão sempre crianças!


Um professor do 1º Ciclo,

Fábio Gonçalves

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