Estou aqui para ti - Para aqueles que regressam


 

Amanhã, quando abrires aquela porta, irás sentir que voltaste a viver. Ainda que com restrições, terás vontade de amar (mais!) e cuidar - cada vez melhor.

Elas irão chegar junto a ti e tu… irás recebê-las como tão bem o sabes fazer! Só pelo brilho dos teus olhos qualquer criança saberá o que estás a pensar: “Estou aqui para ti!”.

Estarás. Como sempre estiveste, quer tenha sido na sala ou atrás do ecrã.

Algumas chegarão de braços abertos, prontos para te abraçar.

Outras entrarão com um sorriso rasgado, com olhos brilhantes só por poderem voltar a ver-te. Por poderem estar contigo e partilhar os seus dias com alguém que as faz feliz: tu. Sim, o sorriso que as irá acompanhar pela manhã é por ti, porque lhes permites que sejam felizes, num espaço tão delas, e ao mesmo tempo tão vosso.

Umas entrarão com alguma timidez, enquanto que outras começam o dia a explorar. A perguntar. A querer saber. Há tanto para fazer e tanto para brincar! Há amigos para rever, um mundo para descobrir e uma vida para (voltar a) viver.

Há ainda aquelas que estarão felizes por te verem, mas cujo regresso será acompanhado por uma, duas ou mais lágrimas, e alguma tristeza no olhar.

Independentemente da forma como entrarem e de como se sentirem, sabes que neste contexto pandémico são vários os efeitos psicológicos nas crianças, pelo que muitas estarão mais frágeis, inseguras, mais nervosas… estarão emocionalmente instáveis. O teu papel é fundamental, para que possas ver para além daquilo que o olhar te mostra. Para que possas escutar para além daquilo que estás a ouvir. É o teu olhar atento que te irá permitir perceber onde, quando ou como podes e deves intervir.

É também aqui que o teu coração vai apertar, porque reconheces que esta transição não será fácil. Mas também sabes que tens um papel fundamental para que estas crianças voltem a sentir-se seguras. É aqui que também te lembras do quanto sentido faz teres escolhido esta profissão: poder fazer a diferença na vida das crianças. Agora mais do que nunca!

Ninguém aprendeu quais são as melhores estratégias para receber crianças pequenas numa sala durante uma pandemia e após um confinamento. Mas mais do que qualquer estratégia, é o conhecimento que tens do teu grupo, e que constróis na prática e na reflexão da tua prática, que te irá permitir promover um ambiente educativo em que as crianças se sintam emocionalmente mais seguras e estáveis; um ambiente promotor de interações entre as crianças; um ambiente que não se centre apenas na aprendizagem mas que lhes proporcione a socialização com os seus pares, que tanta falta lhes tem feito. Um ambiente que reconheça as necessidades de relação. Um ambiente que se centre nas verdadeiras necessidades das crianças.

Neste momento, mais do que planear atividades pedagogicamente ricas, é tempo de cuidar. É tempo de tornar as creches, os jardins-de-infância e as escolas como espaços privilegiados para que as crianças vivam as infâncias.

Esta não é altura de transformar a sala em ateliers de produção ou construção. É um tempo para que as crianças possam viver a infância com a liberdade que não lhes tem sido possível. É um tempo para fazer com que as crianças voltem a sentir-se seguras (num mundo que até aos adultos assusta!).

E já agora, não, não esperes que amanhã as crianças cumpram todas as regras da mesma forma que o faziam antes deste confinamento. Nem durante a primeira, segunda semana. Não te esqueças, antes de exigir, permite-te ouvir as crianças. Escuta as suas reais necessidades.

É tempo de voltarmos. Pelas infâncias. Pelas crianças.
Vamos?

A todos os/as educadores/as e professores/as que, como eu, amanhã regressam, com a mesma paixão que tinham antes:

Que seja um bom e feliz regresso!
Para vocês e para as crianças.

Fábio Gonçalves

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